segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Em torno do teismo e do ateísmo

Certa vez, participei de uma twitcam que discutia alguns temas relacionados ao teismo e ao ateísmo. Como estudante de filosofia, adoro esse tipo de discussão. E as pessoas que assistiam e participavam da conversa - algumas se declaravam ateus, enquanto outras diziam crer em deus - eram educadas e inteligentes, o que permitiu o fluir da conversa. Por causa de minha formação, fizeram várias perguntas acerca do tema na filosofia, como sobre a famosa afirmação marxiana que diz que "a religião é o ópio do povo", ou mesmo para explanar brevemente o que Nietzsche quis dizer com "deus está morto". E eles conseguiram compreender que os dois estavam apenas fazendo um diagnóstico da época onde viviam, e que não se tratavam de pensamentos que expõem argumentos teológicos.

Mas a pergunta que gerou mais incompreensão foi uma pergunta bastante simples. "- Você é ateu, ou você acredita em deus?", me perguntaram. A pergunta oferece duas opções e pede que você escolha uma delas: Ou uma, ou outra. A expressão 'Ou' marca uma relação exclusiva: Ser ateu e acreditar em deus são duas coisas opostas, e é impossível que uma pessoa seja as duas coisas ao mesmo tempo.

Enquanto estudante de filosofia, sei que existem argumentos imbatíveis para a existência e a não-existência de deus. Mas eles não vem ao caso agora. A questão é: Sou isso, ou sou aquilo? O que sou?

Entendo que só posso afirmar que sou teísta se puder sustentar que deus existem. Os argumentos e referências estão ai: Basta verificarmos a presença do sagrado nas diversas civilizações humanas, demonstrando que não se trata de simples falatório. Da mesma forma, só posso afirmar que sou ateu se puder sustentar que deus não existe. E os argumentos também estão ai: Os próprios gregos previram em textos a fura dos deuses do mundo, e vários pensadores (Plutarco, Lutero, Hegel, Nietzsche e Heidegger) desenvolveram longamente a tese da morte de deus. Os argumentos dos dois lados são poderosos, e você não pode simplesmente negá-los de forma arbitrária.

O grande problema é que vivemos em uma sociedade que espera que sejamos alguma coisa que ela possa reconhecer e controlar. Desse modo, é cômodo ser ateu ou teísta. O perigo consiste em apegar-se com tanta força a esse título a ponto de perder de vista o horizonte desde o qual a pergunta se coloca. De esquecer que, em última análise, não existe resposta definitiva acerca do divino. Nunca existirá. E, aliás, esse assunto não espera que nós o desvendemos. Antes, ele espera de nós crescimento e pensamento. E é por essa razão que existem teístas mais ateus que os ateus, e ateus mais teístas que os teístas.

A resposta que pude dar à pergunta foi negativa: Não sou ateu, e não sou teísta. Ou sou ateu e teísta ao mesmo tempo.

sábado, 1 de janeiro de 2011

O significado da liberdade de imprensa, ou: O oportunismo de Lula e o oportunismo de Demétrio Magnoli

"Liberdade é o direito de fazer
tudo o que as leis consentem"
Montesquieu
"Ninguém é mais escravo do que aquele
que se julga livre sem o ser"
Goethe

Em texto publicado no Estado de São Paulo, entitulada "Herói sem nenhum caráter", Demétrio Magnoli apresenta algumas informações sobre o WikiLeaks e uma crítica à Lula, o agora ex-presidente do Brasil. A leitura do texto não me chamou a atenção, pois não traz informações novas ou mesmo algo digno de reflexão. No entanto, retornei a ela após ler um texto de Caetano Veloso publicado n'O Globo (que pode ser lido aqui). Diz Caetano que a análise de Magnoli é luminosa, e que conduz o leitor ao cerne da questão de liberdade de imprensa. Ele também é mal educado ao qualificar quem são os possíveis críticos de Magnoli.

Retornei então ao texto de Magnoli, para ver se encontrava o que Caetano encontrou. E por isso escrevo isso, para dizer que Caetano Veloso está errado sobre esse texto.


O texto apresenta algumas informações sobre a WikiLeaks, afirma que Assange é um heroi - um herói estranho, mas herói -, afirma que os vazamentos rompem um princípio venerável do jornalismo, entre outros assuntos. No entanto, é a crítica que Magnoli faz a Lula que conclui o texto.

Que Lula foi oportunista ao sair em defesa da WikiLeaks não é ponto digno de polêmica. A oportunidade de ser o primeiro chefe de estado ao sair em defesa de Julian Assange e seu grupo estava lá, ele a viu e a agarrou, como um centro-avante que tem uma chance de gol e acerta o chute. E com rara felicidade o ex-presidente acertou no alvo.

Magnoli critica Lula confrontando seu apoio ao WikiLeaks com o silêncio do ex-presidente em relação ao Irã e a Cuba, e em casos de censura no Brasil. Ele está certo em observar este comportamento ambíguo do ex-presidente. No entanto, isto constitui apenas em um desvio do verdadeiro X da questão, o ponto nevrálgico e mais importante do assunto. O ponto principal do assunto em torno da WikiLeaks não é o comportamento ambíguo de nosso ex-Guia, ou se Assange é um herói ou um herói estranho, mas esse: Até agora, apenas dois chefes de estado manifestaram apoio à WikiLeaks. Todos os outros silenciam. O vice-presidente do estado mais poderoso do mundo diz que Assange é um cyber-terrorista. A questão-chave deveria ser a pandemia de ignorância acerca da liberdade de imprensa.

Magnoli teve a chance de tocar no espinhoso e necessário tema ao contar ao leitor que a publicação dos cabogramas viola um princípio venerável no jornalismo. Nas palavras de Magnoli: "A imprensa não publica tudo o que obtém. O jornalismo reconhece o direito à confidencialidade no intercâmbio normal de análises que circulam nas agências de Estado, nas instituições públicas e nas empresas"
. No entanto, o texto não passa disso. Ele assume como óbvio que sabe o que é liberdade de imprensa, assume que o leitor sabe o que é liberdade de imprensa e assume que esta noção é a mesma nele e no leitor. Aqui Magnoli se converte no mesmo blogueiro chapa-branca que crítica em seu texto: Ele simplesmente reproduz informações há muito ditas, sem oferecer temas para uma meditação. Incapaz de apresentar mesmo uma pequena reflexão acerca do sentido da liberdade de imprensa, precisa recorrer às 'fugas' para completar o texto, e por isso critica Lula de forma oportunística.

Perguntamos, então: o que é liberdade de imprensa? Obviamente, a pergunta apenas se esclarece se pensarmos o que significa liberdade. Normalmente, entendemos liberdade como uma espécie de soltura: Se não existem correntes prendendo nossas mãos ou pés ou nos fincando em um lugar específico, somos livres. Se as correntes não nos escravizam, então estamos livres. No entanto, será que estar livre das correntes equivale à ser livre? Ora, é possível estar liberto de amarras e correntes mas pensar como um escravo. Se, por um lado, as correntes não mais estão ali, por outro lado o pensamento permanece o mesmo. Sem amadurecimento e aprendizado não há liberdade possível. E como não existe manual de instrução que ensine com 100% de segurança a fórmula da liberdade, não temos outra escolha senão tentarmos ser livres através da tentativa e do erro. E será assim até não existirem mais humanos, pois este manual de instrução jamais existirá. Se assumimos que temos que constantemente aprender a ser livres, então devemos admitir que, na maior parte das vezes, somos escravos, e escravos de muita coisa: De nossa arrogância, comodidade, ignorância, entre outros grandes escravocratas.

Liberdade supõe, portanto, amadurecimento e aprendizado. Liberdade é menos "liberdade de" e mais "liberdade para". É preciso ser livre para o jornalismo, o que significa saber que se deve constantemente aprender a ser livre. Infelizmente, o que vemos em boa parte do jornalismo brasileiro são jornalistas arrogantes e que acham que são livres, quando são incapazes de mover uma mínima reflexão em torno da liberdade de imprensa. A melhor forma de defender a liberdade de imprensa não é invocar a cláusula pétrea que a protege, mas o constante aprendizado e reflexão em torno da liberdade. Afinal, tal cláusula pétrea é consequência, e não causa, deste aprendizado.

Porque o El Pais publica os vazamentos, ou: A incompetência das elites políticas

Por Javier Moreno, editor do El Pais, livremente traduzido por mim

"Cínicos irão argumentar que nada do que aprendemos com a WikiLeaks difere do modo usual como a política internacional de alto nível é conduzida, e que um mundo sem segredos diplomáticos é ainda menos organizável e mais perigoso para todos. As classes políticas de ambos os lados do atlântico distribuem uma simples mensagem que é ajustada para levarem vantagem: confiem em nós, não tentem revelar nossos segredos; em troca, nós oferecemos a você segurança.

Mas exatamente quanta segurança eles podem realmente oferecer em troca deste suborno moral? Pouca ou nenhuma, uma vez que estamos diante de um triste paradoxo onde esta é a mesma elite política que foi incapaz de supervisionar com propriedade e crise do sistema financeiro internacional, cuja implosão disparou a maior crise desde 1929, arruinando países inteiros e condenando milhões ao desemprego e pobreza. Estes são as mesmas pessoas responsáveis pela deteriorante qualidade de vida de suas populações, pelo incerto futuro do euro, pela falta de um projeto Europeu viável e a crise global de governança que controlou o mundo nos anos recentes, crise da qual as elites em Washington and Brussels não são esquecidas.

A incompetência dos governos Ocidentais e sua inabilidade para lidar com a crise econômica, mudanças climáticas, corrupção ou a guerra ilegal no Iraque e outros países foi eloquentemente exposta nos anos recentes. Agora, graças à WikiLeaks, nós também sabemos que nossos líderes são também conhecedores das suas vergonhosas falibilidades, e que é apenas graças à inércia da sua maquinaria de poder que eles tem sido capaz de cumprir suas responsabilidades democráticas e responder ao eleitorado.

A poderosa maquinaria de estado é moldada para suprimir o fluxo da verdade e para manter segredos em segredo. Nós estamos vendo nas semanas recentes como a maquinaria foi colocada em ação para tentar limitar o dano causado pelas revelações da WikiLeaks.

Considerando o dano recebido nas mãos da WikiLeaks, não é difícil ver porque os Estados Unidos e outros governos Ocidentais tem sido incapaz de resistir à tentação de concentrar a atenção em Julian Assange. Ele parece um alvo fácil demais, e então eles procuraram questionar sua motivação e o modo como WikiLeaks trabalha. Eles também procuraram questionar porque cinco grandes organizações com prestigiosa reputação internacional concordaram em colaborar com Assange e sua organização. Estas são questões razoáveis, e foram todas respondidas satisfatoriamente ao curso das quatro últimas semanas, apesar da pressão posta sobre nós pelo governo, e, pior ainda, por muitos de nossos colegas de imprensa"

Este pequeno pedaço de texto é uma aula de como o jornalismo deve acontecer.

Leia o texto inteiro clicando aqui

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

O trono da morte

Neste post, segue uma reflexão em torno do casamento e da mulher. O texto é um trecho do capítulo chamado 'O trono da morte', presente no livro Asas Partidas, de Khalil Gibran. O livro é imperdível.

O trono da morte, por Khalil Gibran.

O matrimônio em nossos dias é um comércio que faz rir e chorar, pois está nas mãos nos rapazes e nas mãos dos pais das moças. na maioria dos casos, os rapazes ganham. Os pais das moças perdem sempre. Quanto às moças, que passam de um lar para outro como móveis, sua vitalidade fenece e, como os móveis velhos, acabam sendo postas nos cantos das casas, vítimas da escuridão e de uma lenta destruição.

A civilização atual, ainda dominada pela ganância do homem, desenvolveu um pouco a percepção da mulher, mas aumentou muito suas dores. Ontem, a mulher era uma serva feliz; hoje, é uma senhora infeliz. Ontem, era uma cega que andava à luz do dia; hoje, tem visão, mas anda nas trevas da noite. Ontem, era bela na sua ignorância, virtuosa na sua ingenuidade, forte na sua fraqueza; hoje, tornou-se feia na sua sofisticação, superficial nos seus conhecimentos, distante do coração pelas suas pretensões. Virá um dia em que a mulher reunirá a beleza e o conhecimento, a arte e a virtude, a fraqueza do corpo e a força da alma?

Sou dos que dizem que a ascenção espiritual é uma das leis da humanidade, e a aproximação da perfeição, uma tendÊncia lenta, mas real. Se a mulher progrediu em certas coisas e regrediu em outras, é porque os obstáculos que nos impedem de atingir o cume incluem os antros dos saltimbancos e as covas dos lobos. Nesta nação que vive uma época similar à letargia que precede o despertar, nesta nação estranha pelas suas inclinações e aspirações, onde se amontoam o pó das gerações passadas e as sementes das gerações futuras, cada cidade possui uma mulher que simboliza a filha do amanhã. Selma Karame era em Beirute o símbolo da mulher oriental do amanhã. Mas, como muitos que vivem antes do seu tempo, foi vítima do seu tempo; e como uma flor que a correnteza do rio arrancou, foi levada apesar de si mesma pelo cortejo da vida para a infelicidade.

Mansur bei Galeb desposou Selma; e instalaram-se juntos numa casa luxuosa à beira do mar, em Ras Beiture, onde moram os homens mais ricos e inflientes. Fares Karame permaneceu naquela casa isolada, no meio dos parques e dos jardins, tal um pastor no meio de seu rebanho. E os dias de festa e as noites de alegria passaram, e a lua que os homens chamam de mel também se foi, seguida por luas de vinagre e fel, como as glórias das guerras deixam as caveiras nos campos longíncuos.

O esplendor dos casamentos orientais leva as almas dos jovens para além das núveus, como águias, e depois as lançam ao chão com a força da pedra de debulhar caindo no mar. Como pegadas impressas na areia da praia, as ondas logo o apagam.

A primavera se foi, e depois o verão. E chegou o outono. Meu amor por Selma evoluia da paixão de um jovem no amanhecer da vida por uma bela mulher, para aquela adoração muda que o pequeno órfão sente pela alma de sua mãe morando na eternidade. O afeto que dominava meu ser transformou-se numa melancolia cega que não vê mais o mundo, mas vê apenas a si mesma; e o amor que tirara lágrimas dos meus iolhos tornou-se idolatria que tirava gotas de sangue de meu coração; e o gemido de saudade que havia repercutido em mim tornou-se uma prece profunda que minha alma elevava no silêncio, pedindo felicidade para Selma, e contentamento para seu marido e paz para seu pai. Mas em vão sofria eu e solicitava e orava, porque a infelicidade de Selma era um mal que fazia parte da sua alma. Somente a morte podia curá-la.

Quanto a seu marido, era um desses homens que conseguem sem esforço tudo o que torna a vida confortável, mas nunca se safistazem e cobiçam sempre o que naõ lhes pertence, atormentados por sua ganância até o fim da vida.

(...)

Assim periclitam os povos entre os ladrões e os escroques, como os rebanhos são devastados pelas garras dos lobos e os facões dos açougueiros. Assim as nações orientais se submetem a líderes de almas tortuosas e caráter pernicioso, e acabam derrotadas. O destino passa, então, por cima delas e as esmaga sob seus pés como o martelo dos ferreiros esmagam vasos de argila.

Mas por que estou enchendo estas páginas com considerações sobre povos desgraçados e desesperados em vez de consagrá-las, como queria, a narrar a história de uma mulher infeliz e a descrever os sonhos de um coração ferido que o amor, mal o havendo tocado com suas alegrias, já o esbofeteava com suas dores... Por que as lágrimas enchem meus olhos à menção de povos decadentes e oprimidos, quando queria reservar minhas lágrimas para chorar a sorte de uma mulher frágil que a morte arrancou à vida no primeiro dia de primavera? Contudo, naõ é a mulher fraca o símbolo da nação oprimida? Não é a mulher, crucificada entre as aspiações de sua alma e as cadeias de seu corpo, similar à nação crucificada entre seus governantes e sacerdotes? Não são os sentimentos secretos que levam uma linda jovem às trevas do túmulo iguais às tempestades violentas que cobrem a vida dos povos com o pó da terra? A mulher é para a nação como a luz é para a lâmpada. Quando a luz da lâmpada está fraca, não é porque lhe falta o óleo?

Assim, quando o desespero enfraquece nossa visão, não mais vemos senão a sombra dos nossos temores. Assim, quando o desânimo ensurdece nossos ouvidos, não mais ouvimos senão as pulsações de nossos corações agitados.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Adendo ao último post

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teu ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

Os ombros suportam o mundo,
de Carlos Drummond de Andrade

O futebol grita por liberdade

É sabido e batido que, hoje, o futebol é tudo, menos futebol. Ele é cada vez mais uma gigantesca indústria que movimenta bilhões e bilhões de reais, e cada vez menos futebol. Também é sabido e batido o sentimento nostálgico que nos ataca quando comparamos o futebol do passado com o futebol de hoje, este futebol-indústria, futebol-dinheiro, este futebol maltratado por tudo e todos.

Diante destas evidências, perguntamos: será possível e razoável imaginar um futuro onde o futebol seja mais livre, um futuro onde exista um futebol mais futebolístico?

A pergunta não exige resposta imediata, mas reflexão. Nesse sentido, cabe perguntar: o que é o futebol? O que é o esporte?

Não é preciso ir muito longe para obter um aceno, uma pista. Basta prestar atenção na linguagem. A palavra 'esporte' deriva do antigo francês desport (de onde vem o nosso 'desporto'). É formada por des, que diz 'longe', e porter (do latim portare), que diz 'levar', 'carregar'. O esporte é algo que nos carrega para longe. Podemos perguntar: longe do que? Os estudiosos estimam que a palavra nascera em 1300, periodo próximo ao da conhecida Guerra dos Cem Anos. Esta informação nos dá a medida exata do que o esporte procura afastar o homem. É por isso que, em francês, desporter significa 'afastar a mente dos assuntos sérios', e 'desporto' e 'esporte' significam 'jogo', 'atividade lúdica', 'passatempo prazeroso'.

Isso faz do esporte – e do futebol – algo leviano? Não. A palavra ‘esporte’ diz: o futebol é algo que acontece quando todos os ‘assuntos sérios’ estão resolvidos. Quando o homem não precisa se preocupar em ter comida para si e seus filhos, quando não precisa se preocupar em proteger sua própria vida do outro, em suma, quando as condições básicas de sua existência estão satisfeitas, ali começa o futebol. E ali o homem está livremente entregue ao futebol, pois não há nenhum ‘assunto sério’ (pense em uma guerra) lhe roubando a liberdade. E então, livre, o homem doa ao futebol todo o seu sangue, coração, fogo, paixão, tormento, consciência, destino e fatalidade. Deste modo, o futebol é manifestação livre e gratuita do que há de belo no homem, pois o homem o faz por fazer, sem precisar de porquês ou justificativas posteriores. E é por isso que o esporte é belo, e é por isso que somos amantes do esporte. Esta é a essência e o significado primeiro do esporte, e, por extensão, do futebol.

Apesar disso, verificamos que nossa situação é totalmente refratária ao futebol. Se, de um lado, o futebol é algo que nos leva para longe dos ‘assuntos sérios’, por outro lado, o futebol é o sonho de fartura e dignidade para os milhões que não possuem o básico. Através do futebol, sonham em obter o básico que lhes é negado. Isto, por si só, perverte o futebol. Pois a situação, como uma mestra megera, o obriga a tornar-se algo sério. A partir daí diversas aberrações ganham espaço. Em nome do futebol, passa a ser válido matar outros homens nos estádios em nome do futebol. Em nome do futebol, passa a ser válido todo o tipo de armação que garanta a vitória. Todas essas perversidades nascem quando o futebol se torna sério. Os dirigentes, ao invés de implementar as soluções tecnológicas que ajudariam o futebol, preferem deixá-lo agonizando. Mas esta ajuda é apenas um amargo remédio: o grave é nos encontrarmos na necessidade do remédio, e não existe solução tecnológica que nos salve.

O futebol tornou-se um negócio. Não se quer saber mais do futebol propriamente dito: interessa apenas é que ele esteja sempre à disposição dos consumidores. Ao invés de dizer o que e como o futebol é, a mídia o vende como o magnífico espetáculo que ele já não é. Tudo em nome do negócio. Por isso, nosso país foi colocado à disposição do futebol-indústria, que consumirá o suado dinheiro do povo para acontecer em 2014. Em nome do futebol, colocamos nosso lar inteiramente à disposição. Em um segundo, reduzimos um pais e um povo à simples matéria prima, da qual esperamos os recursos que garantam uma copa do mundo.

Por todos os lados o futebol é dominado e controlado. Por todos os lados reina o futebol-indústria, o futebol-negócio. Em lugar algum, o futebol-futebol, o simplesmente futebol.

Longe do olhar de todos, o futebol cora, incompreendido, envergonhado de tudo e gritando por liberdade. Obrigam-no a se comportar como velho ranzinza e jogam sob seus ombros – de criança – a responsabilidade de suportar o mundo. O futebol vive num hoje onde o futebol é uma ordem. Quando transformamos o futebol em algo sério, roubamos dele a coisa básica que sustenta sua existência: a liberdade. Pois não é só o homem que respira liberdade. Também o futebol deseja ser só e apenas futebol. Também o futebol quer ser livre.

Será possível imaginar um futuro onde o futebol seja mais livre, um futuro onde exista um futebol mais futebolístico? A pergunta é grave. Pois, hoje, vigora uma crescente indiferença do homem em relação ao que há de essencial no futebol e no esporte como um todo. Ainda não sentimos isso na pele porque, se nós nos tornamos indiferentes a eles, eles ainda não se tornaram indiferentes a nós. E se um dia se tornarem? Haverá volta?

A resposta – se é que isso existe – à pergunta reside na reflexão em torno de uma outra pergunta, que é ainda mais grave e urgente.

Será possível e razoável imaginar um futuro onde o homem seja mais livre?

O esportista é um fingidor

Por Marcos Nobre

O esportista é um fingidor.

O ator de cinema não representa para um público, mas diante de um aparelho. Desempenhar bem significa passar por um teste extremamente exigente. No fundo, o que está em jogo é conseguir manter a dignidade humana diante de uma máquina.

Essa é uma das muitas sacadas do pensador Walter Benjamin, morto em 1940. Que acrescentou: "O interesse nesse desempenho é imenso. Porque é diante de um aparelho que a esmagadora maioria dos citadinos precisa alienar sua humanidade, nos balcões e nas fábricas, durante o dia de trabalho".

O cinema é a vingança noturna contra o dia de trabalho, em que máquinas dominam quem as opera. Difícil saber se a compensação do filme leva à transformação do mundo ou ao conformismo. Ou, o que parece mais plausível, às duas coisas ao mesmo tempo.

Mas é fato que a cultura do teste se espalhou por todos os domínios da vida, da política ao mundo da moda, da música ao esporte. Hoje, tem o formato de uma cultura da celebridade. Com a televisão, a democracia de massas passou a selecionar pessoas capazes de desempenhar diante da câmera, por exemplo. É um movimento que pasteuriza os conflitos e bloqueia o acesso da grande maioria das pessoas à esfera pública e à política.

Já a internet trouxe um contramovimento interessante. Vídeos tecnicamente elementares atraem milhões de espectadores na rede. Vale cantar fora dos padrões, dançar e representar como for possível, lançar filmes caseiros. Não teve o efeito de libertar por inteiro a sociabilidade da lógica do desempenho. Mas mostrou que o teste pode ter outro sentido que apenas o de excluir.

Walter Benjamin dizia que a cultura do teste mecanizado não se aplicava ao esporte, onde os limites são, por assim dizer, naturais, onde o adversário não é a máquina. Pode ser que mudasse de ideia ao assistir a uma Olimpíada, ou a uma Copa do Mundo nos dias de hoje.

A dor física dos esportistas é constante. O negócio bilionário do chamado "esporte de alto desempenho" exige literalmente sacrifício: são frequentes e esperadas fraturas, lesões, cirurgias. E o desempenho não é apenas físico e psicológico; exige ainda o desempenho diante da câmera. A mensagem é a de que uma disciplinada submissão à técnica traz a vitória pessoal e coletiva. Não se trata de vencer a máquina, mas de lhe ser obediente em máximo grau. No esporte oficial, a rebeldia é hoje tratada como delinquência.

Sem saudosismos, falta agora inventar outros sentidos para o teste esportivo. Para que possa ser outra coisa do que o produto pasteurizado de um sofrimento muito real.